Um dia levei Clarice para a sala de aula. Alguns alunos julgaram-na difícil de compreender. Mas todos foram persistentes na leitura. E ninguém desistiu. Enquanto uns permaneciam em silêncio, lendo e relendo os fragmentos que escolhi para que me escrevessem em um texto: "O que vocês leem aí"? Outros conversavam entre si, tentando achar a resposta certa. Eis que um deles levantou e, com os fragmentos de Clarice nas mãos, veio em minha direção: - "professora, não tem uma resposta certa, né? O que a Senhora quer aqui é que a gente se entenda no texto. Mas vai ser difícil de avaliar e dar uma nota, professora".
Eu respondi: - "é, vai ser bem difícil".
Ele balançou a cabeça em silêncio. Voltou para o seu lugar e pôs-se a escrever.
Segue um fragmento do livro "Perto do Coração Selvagem", de Clarice, para todos professores e às professoras que dedicam seu tempo dentro e fora da sala de aula, lendo seus alunos.
...
— E daí em diante ele e toda a família dele foram felizes.
— Pausa — as árvores mexeram no quintal, era um dia de verão. — Escrevam em resumo essa história para a próxima aula.
Ainda mergulhadas no conto as crianças moviam-se lentamente, os olhos leves, as bocas satisfeitas.
— O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana, — Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
— Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
— Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? — repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
— Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
— Ser feliz é para se conseguir o quê?
A professora enrubesceu — nunca se sabia dizer por que ela avermelhava. Notou toda a turma, mandou-a dispersar para o recreio.
O servente veio chamar a menina para o gabinete. A professora lá se achava:
— Sente-se... Brincou muito?
— Um pouco...
— Que é que você vai ser quando for grande?
— Não sei.
— Bem. Olhe, eu tive também uma ideia — corou.
— Pegue num pedaço de papel, escreva essa pergunta que você me fez hoje e guarde-a durante muito tempo.
Quando você for grande leia-a de novo. — Olhou-a. — Quem sabe? Talvez um dia você mesma possa respondê-la de algum modo... — Perdeu o ar sério, corou. — Ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com...
— Não.
— Não o quê? — perguntou surpresa a professora.
— Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho.
A professora ficou novamente rosada:
— Bem, vá brincar.
Quando Joana estava à porta em dois pulos, a professora chamou-a de novo, dessa vez corada até o pescoço, os olhos baixos, remexendo papéis sobre a mesa:
— Você não achou esquisito... engraçado eu mandar você escrever a pergunta para guardar?
— Não, disse. Voltou para o pátio.