17 de dezembro de 2011

TÁ TUDO DENTRO DA GENTE


A nossa verdade parece estar no outro. Parece. 
A infelicidade do outro nem sempre é o espelho do que carregamos nos nossos olhos. 
Mas a nossa infelicidade é.
Tá tudo dentro da gente o que queremos saber de verdade. 



Vai sem direção 
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Solte seus cabelos ao vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair
Cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade

                                                     O que você quer saber de verdade - Arnaldo Antunes

11 de dezembro de 2011

MÁRCIO GRINGS EM - AS FRASES DOS LIVROS - 1

Márcio tem me acompanhado há meses. É o meu livro de bolsa. Levo-o por todos os lugares. Sim, ele tá todo rabiscado! Mas o próprio Márcio Grings disse que acha bonito ver seu livro assim -  cheio de 'rabiscos'.

AS FRASES DOS LIVROS -  é um espaço dedicado aos autores que carrego comigo pra lá e pra cá. Porque sou dessas que acha que uma frase já é um livro. 
Começo com a obra:  A Nós, O Clube dos Descontentes. 

Obrigada, Márcio, por me deixar te rabiscar assim.


...[Um bom poema me deixa eufórico & com as pupilas dilatadas.]...
em "O Homem Elétrico" - página 13


...[Eu quero a confusão & a intensidade da cor vermelha.]...[ Eu procuro a incerteza do improviso & o traquejo de uma madrugada espantada de excessos.]...
em "O Guitarrista" - página 25



 ...[ Sairiam daquela encrenca, no mínimo, como amigos.]...
em "Mate-me, por favor! - página 37


...[Eu beijei seu pescoço como a capa de um livro raro.]...
em "Dentro de nossas bocas" - página 41


10 de dezembro de 2011

QUANDO EU LEIO CLARICE

Quando eu tô meio oca, leio Clarice. 
Porque tudo é incerto, sem um espaço definido, eu leio Clarice. 
Quando sinto que é preciso que nasça uma ou outra coisa em mim, eu a leio. E faço isso com a esperança de que nada se altere, só se desabroche. 
Quando não me entendo, leio Clarice. E é certo que às vezes não me compreendo, então, leio pra me falar o menos possível. Porque assim ela diz mais. 
Entre nós há um quando qualquer. É na hora que dá vontade. É uma leitura sem compromisso e sem obrigação. 
Eu tenho Clarice por toda a parte. E quando eu leio Clarice,
                                                                        eu me leio,
                                                                             me descubro
                                                                          e me mantenho livre.
Nos seus livros, faço anotações, rabiscos e diálogos. Não tenho dó de mim, e não me prendo. 
Eu leio Clarice pra penetrar no caos. Por motivos que ficam comigo, os quais não preciso dizer. É a comunicação com o mais secreto de mim mesma. 
Clarice é uma história que não acaba nunca. 

Clarice faria 91 anos hoje. E pra mim, ela nunca foi embora. 



Bethânia lê Clarice:



12 de outubro de 2011

QUANDO EU ERA CRIANÇA

Eu queria crescer pra passarinho...
                                                                 [Manoel de Barros do Livro Sobre Nada]

8 de agosto de 2011

OUTROS VENTOS QUE VÊM DO PULMÃO


É a única coisa que justifica essas faltas todas, as falhas, as idas e as voltas, o não sentir, o sentir demais por ti, o querer e o não querer ao mesmo tempo - e no segundo que te olho quando chego, quando vou embora, quando volto, quando fico. quando nem sei mais por quê. então, deixo tudo nas mãos do que eu consigo respirar aqui:
'São momentos lá dentro de nós,
São outros ventos que vêm do pulmão
E ganham cores na altura da voz'
 Canta, Jeneci:



6 de julho de 2011

104 ANOS DE FRIDA

''Pinto a mim mesma, porque sou sozinha
 e porque sou o assunto que conheço melhor.''

 6 de julho de 1907 — 13 de julho de 1954

INTIMIDADE FEMININA



Escovar os dentes na frente dos outros, não revelar a idade que tem; Jamais fazer xixi com a porta aberta, admitir que nunca teve um orgasmo; Não conseguir ficar sozinha em casa, fazer aulas de dança do ventre; Pintar os cabelos de dez em dez dias para não aparecerem os brancos, ter vergonha de usar biquíni; Falar sobre sexo abertamente com as amigas, jamais ter olhado no espelho suas partes íntimas; Viajar sozinha, perdoar uma traição; Não contar para a mãe quando perdeu a virgindade, entrar no banheiro junto com a amiga; Manter-se virgem para o casamento, trair o marido; Dar selinho em um amigo, não usar toalha dos outros; Andar de calcinha e sutiã pela casa, não amamentar o filho na frente de estranhos; Confidenciar para a melhor amiga seus maiores medos, não revelar o valor do seu contracheque nem para o seu marido; Guardar em segredo seu grande amor, contar os dias férteis na tabelinha com a prima mais chegada; Colecionar lingerie, sonhar com o casamento.
Proibida ou não. Pesada ou não. Familiar ou não. Por mais que nos pareça corriqueira, a intimidade feminina não é pública, é privada. Ou seja, o que fazemos na nossa intimidade não revelamos assim, aos quatro ventos, e às vezes, nem em particular, para alguma amiga. Nossas ações íntimas são sagradas e estão bem guardadas na nossa gaveta, no nosso banheiro, no nosso quarto, na nossa casa, no nosso corpo e na nossa alma.
Há intimidades que dividimos com o homem ou com outra mulher. Cada caso é um caso. Porém, até a mulher mais moderna é desconfiada na hora de se expor. Confidenciamos para nossa melhor amiga o que há de mais íntimo em nós? Sim, mas só se soubermos que não há riscos no que vamos revelar. Com o homem, então, a intimidade feminina pode fortalecer a relação, salvar a rotina amorosa, ou esfriá-la. É um terreno frágil esse. O que temos de íntimo em nós não pode ser uma arma de fogo contra nossa integridade. Queremos cumplicidade, respeito e parceria do outro ou da outra. Não queremos ser julgadas pelo que fazemos ou deixamos de fazer. Na hora da intimidade, vale tudo para nos sentirmos bem na frente do nosso espelho. Afinal, para que serve a intimidade de uma mulher senão para se autoconhecer?
Para muitos, a intimidade feminina está relacionada ao sexo. Há mulheres que não têm vergonha de falar sobre sexo. Há aquelas que assumem publicamente que gostam de praticá-lo. Há quem jamais se envolva em uma relação só pelo benefício do prazer íntimo. E existem, ainda, aquelas que nunca tocam nesse assunto. Pois é privado demais.
A verdade é que no universo feminino não há regras. O que é público para umas é privado para outras. Como é o caso da cena que vi e nunca vou esquecer: enquanto minha melhor amiga amamentava sua pequena, recém-nascida, coberta por um protetor de amamentação, revelou-me que“não se sentia à vontade para expor esse momento único de intimidade das duas”. Além disso, confessou-me que “entre uma fralda e outra, sempre encontrava tempo para um batom, um lápis nos olhos e uma escovada rápida nos cabelos”. E rindo, admitiu: “claro, na maior correria! O que não dá é para deixar a minha intimidade e o meu lado feminino de lado, né”. É. Na intimidade de uma mulher cabe também o singelo, a beleza e o respeito.
Mas a intimidade feminina mais fascinante é aquela que fica dentro da gente, guardada na alma. Ela se apresenta quando estamos sozinhas, e nos pega de surpresa, mudando nossas próprias convicções. É uma intimidade que define o exato momento em que devemos nos tornar mães, que é hora de perdoarmos as nossas falhas, que temos força para lidar com as perdas e com a ação do tempo. É no íntimo feminino onde segredamos os sentimentos que nunca se tornaram públicos. É onde guardamos o único amor verdadeiro, a paixão avassaladora, ou o sonho de viver livre. É preciso, no entanto, maturidade para percebê-la, coragem para encará-la e paciência para entendê-la.
Seja o sexo, a vaidade, o amor, a liberdade, ou o que queremos para a nossa vida, a intimidade feminina é privada para os outros, mas publicada dentro de cada uma de nós.
Intimidade Feminina - Jozi Elen Fleck - Publicado na Revista IMPACTO

5 de julho de 2011

CLARICE COM CAFÉ

Eu e a descoberta do "meu" mundo. 
- Porque há dias em que eu escolho ser livre, 
mesmo que as verdades sejam difíceis de suportar -
"Era um ser que elegia. Entre as mil coisas que poderia ter sido, fora se escolhendo. Num trabalho para o qual usava lentes, enxergando o que podia e apalpando com as mãos úmidas o que não via, o ser fora escolhendo e por isso indiretamente se escolhia. Aos poucos se juntara para ser. Separava, separava. Em relativa liberdade, se se descontasse o furtivo determinismo que agira discreto sem se dar um nome. Descontado esse furtivo determinismo, o ser se escolhia livre. Guiava-o a vontade de descobrir o próprio determinismo, e segui-lo com esforço, pois a linha verdadeira é muito apagada, as outras são mais visíveis. Separava, separava. Separava o chamado joio do trigo, e o melhor, o melhor se comia. Às vezes comia o pior. A escolha difícil era comer o pior. Separava perigos do grande perigo, e era com o grande perigo que o ser, embora com medo, ficava. Só para pensar com susto o peso das coisas. Afastava de si as verdades menores que terminou não chegando a conhecer. Queria as verdades difíceis de suportar. Por ignorar as verdades menores, o ser parecia rodeado de mistério; por ser ignorante, era um ser misterioso." 
- Clarice na Cabeceira - em Perfil de um ser eleito.

20 de maio de 2011

SÓ SEI DANÇAR COM VOCÊ - TULIPA RUIZ

                                                                                                    Ateliê da Tulipa - Tango



[...Você sacou a minha esquizofrenia
E maneirou na condução
Toda vez que eu errava
 Você dizia pra eu me soltar porque você me conduzia
Mesmo sem jeito eu fui topando essa parada
E no final achei tranquilo
Só sei dançar com você e isso é o que o amor faz...]

4 de abril de 2011

CLARICE LISPECTOR - NA SALA DE AULA

Um dia levei Clarice para a sala de aula. Alguns alunos julgaram-na difícil de compreender. Mas todos foram persistentes na leitura. E ninguém desistiu. Enquanto uns permaneciam em silêncio, lendo e relendo os fragmentos que escolhi para que me escrevessem em um texto: "O que vocês leem aí"? Outros conversavam entre si, tentando achar a resposta certa. Eis que um deles levantou e, com os fragmentos de Clarice nas mãos, veio em minha direção: - "professora, não tem uma resposta certa, né? O que a Senhora quer aqui é que a gente se entenda no texto. Mas vai ser difícil de avaliar e dar uma nota, professora". 
Eu respondi: - "é, vai ser bem difícil".
Ele balançou a cabeça em silêncio. Voltou para o seu lugar e pôs-se a escrever.
Segue um fragmento do livro "Perto do Coração Selvagem", de Clarice, para todos professores e às professoras que dedicam seu tempo dentro e fora da sala de aula, lendo seus alunos. 
 ...

— E daí em diante ele e toda a família dele foram felizes.
— Pausa — as árvores mexeram no quintal, era um dia de verão. — Escrevam em resumo essa história para a próxima aula.
Ainda mergulhadas no conto as crianças moviam-se lentamente, os olhos leves, as bocas satisfeitas.
— O que é que se consegue quando se fica feliz?, sua voz era uma seta clara e fina. A professora olhou para Joana, — Repita a pergunta...?
Silêncio. A professora sorriu arrumando os livros.
— Pergunte de novo, Joana, eu é que não ouvi.
— Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? — repetiu a menina com obstinação.
A mulher encarava-a surpresa.
— Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
— Ser feliz é para se conseguir o quê?
A professora enrubesceu — nunca se sabia dizer por que ela avermelhava. Notou toda a turma, mandou-a dispersar para o recreio.
O servente veio chamar a menina para o gabinete. A professora lá se achava:
— Sente-se... Brincou muito?
— Um pouco...
— Que é que você vai ser quando for grande?
— Não sei.
— Bem. Olhe, eu tive também uma ideia — corou.
— Pegue num pedaço de papel, escreva essa pergunta que você me fez hoje e guarde-a durante muito tempo.
Quando você for grande leia-a de novo. — Olhou-a. — Quem sabe? Talvez um dia você mesma possa respondê-la de algum modo... — Perdeu o ar sério, corou. — Ou talvez isso não tenha importância e pelo menos você se divertirá com...
— Não.
— Não o quê? — perguntou surpresa a professora.
— Não gosto de me divertir, disse Joana com orgulho.
A professora ficou novamente rosada:
— Bem, vá brincar.
Quando Joana estava à porta em dois pulos, a professora chamou-a de novo, dessa vez corada até o pescoço, os olhos baixos, remexendo papéis sobre a mesa:
— Você não achou esquisito... engraçado eu mandar você escrever a pergunta para guardar?
— Não, disse. Voltou para o pátio.